terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Demonstrativos

Os demonstrativos distinguem-se conforme a proximidade e a visibilidade:

este, esta, estes, estas, isto; eis aqui, eis que já:

Para coisa ou ação que se esteja vendo: Kó ou Ikó
Para coisa ou ação que se esteja vendo ou não: ã (antes de consoante), ang(antes de vogal), anga; iã, ianga, iang

esse, -a, -es, -as, -o; aquele, -a, -es, -as, -o; eis aí ou lá:

Para o que se está vendo:
kûeîa, kûeî, kûé, ebo-kûeîa, ebo-kûeî, ebo-kûé, ebo-uinga, ebo-uĩ, eb-uĩ, e-guĩ, euĩ, uĩ

Para o que não se está vendo:
a-îpó, a-é, a-kó, a-kûeîa, a-kûeî, a-kûé

Note que o prefixo a- nos demonstrativos refere-se ao que se está fora de vista ebo- para o que está próximo da pessoa com quem se fala, correspondente ao esse.

Quando forem pronomes substantivos, os demonstrativos geralmente vêm com -A final
(akûeî-a, ebokûe-a, 'ang-a, iang-a) ou com o sufixo -BAE (kó-bae, kûeî-bae, aîpó-bae, etc.). Os que terminam em vogal podem também aparecer sem sufixo quando forem substantivos.

- Todos os demonstrativos podem ser seguidos de aé "mesmo":
kó aé: este mesmo akó aé: aquele mesmo

- O substantivo, quando expresso, vem depois do demonstrativo:
kó abá o-só, aîpó-bae o-ur: este homem foi, aquele veio.


Bibliografia: Curso de Tupi Antigo, Pe. A. Lemos Barbosa

Possessivos

Os adjetivos possessivos em Tupi comportam-se geralmente, como os possessivos de nossa língua. Não há em Tupi os pronomes possessivos:

Xe: meu, minha. meus, minhas
Nde: teu, tua, teus, tuas---------
I (relativo): seu, sua, seus, suas; dele, dela, deles, delas
O (reflexivo): seu, sua, seus, suas; dele, dela, deles, delas
Îandé (inclusivo): nosso, nossa, nossos, nossas
Oré (exclusivo): nosso, nossa, nossos, nossas
Pe: vosso, vossa, vossos, vossas
Asé: da gente----------------------

- Oré é utilizado quando "nosso" não inclui a pessoa ou as pessoas com quem se fala. Nos casos em que a pessoa ou pessoas estão incluídos usa-se îandé.

Îandé oka: nossa casa (dizem entre si os donos da casa).
Oré oka: nossa casa (diz um ou vários donos da canoa a um ou mais que não são)

- Usa-se o quando "seu", "sua", "seus", "suas" referem-se ao sujeito".

Afukaká destruiu sua canoa (do Afukaká mesmo): o ygara
Afukaká destruiu sua canoa (de Izarari): i ygara


Regras de Pronúncia

- I, antes de outro i ou de y, recebe um î eufônico:

I-î ygara: sua canoa
I-î r-uba: seu pai


- O s que se segue ao i, passa para x

sy: mãe i xy: a sua mãe
sama: corda i xama: a sua corda


VOCABULÁRIO
ygara: canoa
r-uba: pai
oka: casa

Qualificativos

"De uma raíz simples e bem objetiva, o tupi-guarani chega a formar um vocabulário muito extenso, rico em nuanças e significados."- Max H. Bodin, Simbolismo verbal primitivo

Os adjetivos qualificativos são invariáveis. Pospõem-se ao substantivo. Este, se é oxítono, não sofre alteração:
itá: pedra tinga: branco itá tinga: pedra branca
y: rio puku: comprido y puku: rio comprido

Se é paroxítono, - antes de vogal, perde a última vogal; antes de consoante ou semivogal, perde a última sílaba:
taba: aldeia ybaté: alto tab' ybaté: aldeia alta
ybaka: céu piranga: vermelho ybá' piranga: céu vermelho
aoba: veste tinga: branco aó' tinga: veste branca

Nos paroxítonos dissilábicos, é rara a perda da sílaba:
ara: dia panema: aziago ara panema: dia aziago
aba*: cabelo tinga: branco aba tinga ou á' tinga: cabelo branco

*Cuidado para não confundir com abá: homem, índio

O uso de hífen para separar os componentes de uma palavra não é obrigatório, mas em vários casos pode ser uma ferramenta útil para que o leitor identifique mais facilmente os elementos componentes de uma palavra. exemplo:

itá tinga, itatinga ou itá-tinga



Bibliografia: Curso de Tupi Antigo, Pe. A. Lemos Barbosa (Adaptado)

Substantivo

O substantivo tupi pode ser monossilábico ou polissilábico. Termina sempre em vogal tônica ou em -a átono. Pode ser simples, composto, derivado.

Em tupi não há artigos nem definidos nem indefinidos

Gênero: Não há gênero gramatical. Somente prende-se ao gênero tudo o que gera vida: mulher ou fêmea, homem ou macho, embora o sexo não tenha repercussão alguma, do ponto de vista gramatical, quer nos adjetivos, quer nos pronomes ou nos verbos.

Masculino Absoluto
t-uba: pai
mena: marido
abá: índio, homem

Feminino Absoluto
sy: mãe
t-e-mi-r-ekó: mulher
kunhã: índia, mulher

Os nomes de animais sevem para os dois sexos. Mas sendo necessário esclarecer por palavras colocadas logo após o substantivo: apyaba (m.) e kunhã (f.) (para seres humanos), s-akûãî-bae (m.) e kunhã (f.) (para animais):

tapiira: anta tapiira s-akûãî-bae: anta macho
tapiira kunhã: anta fêmea

mboîa: cobra mboîa s-akûãî-bae: cobra macho
mboîa kunhã: cobra fêmea

Número: Não há número gramatical. As palavras correspondem igualmente ao nosso singular e ao plural:

t-esá-y lágrima, lágrimas; ypeka pato, patos

O sentido colher-se-á no contexto da frase.

No tupi colonial, passou-se a empregar etá "muitos"para realçar a pluralidade (com a perda do a final nos paroxítonos):

pirá: peixe pirá etá: peixes
paka: paca pak'etá: pacas

Não se deve abusar desse indefinido já que esse não era seu primitivo sentido, principalmente se o plural já se subentende:

mosapyr pirá: três peixes (NUNCA mosapyr pirá etá)

Substantivos abstratos: No tupi não havia substantivos abstratos, porém com a permanência dos jesuítas houve uma tendência a substantivar os adjetivos como os infinitivos:

poranga: belo= beleza
osanga (t): paciente= paciência
nhe-mo-yrõ: irar-se= ira

Bibliografia: Pe. A. Lemos Barbosa, Curso de Tupi Antigo;
Max H. Boudin, O Simbolismo Verbal Primitivo

Alfabeto

Os índios não tinham escrita, por isso cada gramático ou estudioso europeu procurou transcrever o tupi no alfabeto de sua língua nativa, fazendo as devidas adaptações, portanto não é de se estranhar que uma palavra em tupi possa ser escrita de várias formas, por exemplo: Ygûasu, Yguassú, Yguaçú, Yguasú.
O alfabeto que utilizaremos aqui será o utilizado pelo Padre A. Lemos Barbosa em seu livro Curso de Tupi Antigo:



PRONÚNCIA

-O s soa como o ç português, não como o z:
a-só (pronuncia-se açó): eu fui

-O r é sempre brando, mesmo no início das palavras:
roy: frio ( o r soa como em arara)

-O x é como o de "xadrez"

-O h é aspirado, como no inglês. É muito freqüente no guarani, já que em tupi só aparece em três ou quatro palavras.

-O g nunca pronuncia-se como j, mesmo antes de e, i ou y:
mo-ingé (pronuncia-se moingué, não moinjé): introduzir

--O d no início da palavra é sempre precedido de n, ainda que nos documentos antigos, esta letra não venha escrita; pode-se pronunciar só o n sem o d:
ne ou nde (pronunciar nde ou ne, nunca de): tu

-Em seguida de pausa (ponto, vírgula, etc.), b é sempre precedido de m, ainda que esta letra não figure:
baé (leia-se mbaé): coisa

-Também o g sempre pressupõe n:
gatu (pronuncia-se ngatu): bom, bem
Só se abre exceção qaundo vem seguido da semivogal û: gûasu

-O som do y não tem correspondente em português, obtém-se aproximadamente seu som colocando a língua como se estivesse tentando pronunciar o "u", mas com os lábios estendidos para pronunciar o "i".

-As outras vogais, como em português do Brasil, na pronúncia padrão.

-Nos ditongos crescentes e nos tritongos, î pronuncia-se como o y espanhol (em "ayer", "yo") ou inglês (em "yes", "beyond"), exemplo:
îasy: lua; kaîa: arder; kaîá: cajá
Alguns autores, nesses casos, escrevem j; jasy, kajá

-Nos ditongos decrescentes, î, pronuncia-se como o i português:
kaî (pronuncia-se kái): pegar fogo

-Utiliza-se do hífen para separar os elementos da palavra, mas na leitura não se faz caso dele.



Referência Bibliográfica: Pe. A. Lemos Barbosa, Curso de Tupi Antigo